Brincar com o fogo dá direito a queimaduras.
Muito cuidado com os movimentos que começam a circular para organizar uns protestos França-like aqui em Portugal. Independentemente do nosso grau de contentamento/descontentamento com a realidade nacional, é preciso perceber o que está aqui em causa.
A imagem deste post é tirada de uma página que apela à “Revolta Nacional”, com discurso inflamado contra políticos, misturando verdades, meias-verdades e falsidades, e marcando data, hora e local para protestos que são ilustrados com imagens de violência entre manifestantes e polícia. Não deixo link para não a promover.
As pessoas que estão a organizar estes movimentos estão, muitas delas, ligadas a movimentos abertamente fascistas, fazendo apologias públicas de Salazar e identificando-se, alguns, como membros do PNR. Tal como noutras partes do mundo, já chegou a Portugal a paranoia das teorias da conspiração e a manipulação de descontentes através das redes sociais, tão bem trabalhadas por extremistas, sobretudo pertencentes à metade direita do espectro político.
Não querendo identificar as páginas referidas para não lhes dar visibilidade, uso um outro exemplo representativo. Este grupo –https://www.facebook.com/groups/1599078853638825/ – é um suposto grupo de apoio ao Juiz Carlos Alexandre. 10 dos meus amigos aqui são membros (a quem apelo que se ponham a andar, já perceberão porquê). Manipulando um sentimento comum na população portuguesa, relacionado com as fantásticas aventuras de Sócrates, os administradores – 3 deles declaradamente do PNR – vão aproveitando para espalhar ódio generalizado através de páginas de desinformação (não é fakenews, porque nem sequer é bom o suficiente para merecer esse nome). O grupo tem 96 mil pessoas. 96 mil fascistas? 96 mil militantes do PNR? Claro que não. Mas são 96 mil alvos da propaganda. E isto é apenas um exemplo.
Outro: a página bombeiros24.pt. Mais uma vez, a estratégia clássica. Usando uma causa que apela à emoção e a sentimentos generalizados na população – o agradecimento aos bombeiros e a comoção com o seu sofrimento – os administradores vão espalhando as suas ideias, dirigindo os seus ódios, alimentando revoltas à base de mentira e desinformação. Um dos artistas promovidos neste megafone de ódio é o Mário Gonçalves, que ainda há umas semanas promoveu aqui uma bestialidade total, uma suposta investigação do MAI ao fotógrafo que “apanhou” Isabel Moreira a pintar as unhas na AR – informação falsa, que ele sabia ser falsa, e que manteve pública muito tempo depois de ser informado disso, sem qualquer nota que o contrariasse (errar, erramos todos, a resposta ao erro é que ajuda a distinguir). Este site, supostamente de apoio a bombeiros, é um dos agentes a promover ativamente o evento de FB do protesto, que já conta com 30 mil interessados, alguns deles – novamente – meus amigos aqui, que sei que certamente não se juntariam se fizessem ideia da origem dos cabecilhas.
São dezenas os grupos que espalham aí imagens e “notícias” nas redes e que começam a organizar-se, apoiados em sites tão credíveis como tuga.press, direitapolitica.com, ou páginas como “o país do mete NOJO” ou “remexido” (que nomes maravilhosos)
Se fossem fotos de mamas, o Facebook tinha bloqueado, mas incitação à violência e discurso de ódio não trazem grande problema aqui por estes lados. Não é possível desmontar tudo o que por aqui vai, é muito mais fácil atear o incêndio desinformativo do que apagá-lo. Atenção ao que partilham, aos eventos onde se registam, aos perfis em quem confiam. Portugal tem sido um país tranquilo, e certamente não é com vandalismo coordenado por fascistas que vai libertar-se dos efeitos que vai tendo. Não confundamos a indignação com o processo político, qualquer que ela seja, com soluções violentas lideradas por quem ganha com o caos.